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Psicomotricidade e aprendizagem: entenda a importância para o desenvolvimento infantil

Descubra como aspectos motores, cognitivos e emocionais estão relacionados ao processo de aprendizagem.

Psicomotricidade e aprendizagem: entenda a importância para o desenvolvimento infantil

O desenvolvimento infantil envolve muito mais do que o crescimento físico. Desde os primeiros anos de vida, a criança aprende a partir das experiências que vivencia com o próprio corpo, com o espaço e com as pessoas ao seu redor. É nesse contexto que a psicomotricidade ganha importância, ao relacionar aspectos motores, cognitivos, emocionais e sociais do desenvolvimento.

No quarto episódio do Papo com Especialista, Nathália Melo conversou com Polly Lopes, especialista em Psicomotricidade e coordenadora da Faculdade IDE, sobre a influência da rotina contemporânea, do excesso de telas e da redução das brincadeiras com movimento no desenvolvimento infantil.

A conversa também aborda a importância do brincar livre, a relação entre psicomotricidade e aprendizagem e os cuidados necessários no acompanhamento de crianças neurodivergentes. Assista ao episódio completo:

>> Psicomotricidade: muito além do movimento - Papo com Especialista #04

Como o excesso de telas pode afetar o desenvolvimento motor?

A infância atual está cada vez mais cercada por dispositivos eletrônicos. Celulares, tablets, computadores e televisão fazem parte da rotina de muitas crianças e, quando ocupam grande parte do tempo destinado ao movimento e às brincadeiras, podem reduzir as oportunidades de exploração corporal.

Para Polly Lopes, um dos impactos dessa mudança está na diminuição das experiências motoras. Atividades simples da infância, como correr, saltar, subir, descer, equilibrar-se, arremessar e brincar ao ar livre, oferecem desafios importantes para que a criança conheça o próprio corpo e desenvolva diferentes habilidades.

Quando essas experiências são substituídas por longos períodos de inatividade, a criança pode ter menos oportunidades de ampliar seu repertório motor. Por isso, mais do que pensar apenas no tempo de tela, é importante observar o que está deixando de ser feito por causa dela.

A questão não é eliminar a tecnologia da infância, mas buscar equilíbrio entre atividades digitais, movimento, interação social, descanso e brincadeiras.

A escola também tem um papel no desenvolvimento motor

Nem todas as crianças têm as mesmas oportunidades de brincar, correr e explorar diferentes ambientes fora da escola. Por isso, o ambiente escolar pode ser um espaço importante para ampliar essas experiências.

Nesse contexto, a Educação Física escolar vai muito além da recreação. Atividades planejadas podem proporcionar experiências de equilíbrio, coordenação, orientação espacial, lateralidade, ritmo, força e outras habilidades importantes para o desenvolvimento motor.

O professor também pode observar como a criança se movimenta, interage com o espaço e responde aos desafios propostos. Essa observação ajuda a identificar possíveis dificuldades e, quando necessário, orientar a família para que busque uma avaliação profissional adequada.

A superproteção e a riqueza do "brincar livre"

Outro ponto destacado no episódio é a importância de permitir que a criança tenha experiências de brincadeira espontânea.

A superproteção parental, motivada pelo medo de que a criança se machuque ou se suje, acaba limitando o desenvolvimento motor. Em contraponto, o brincar espontâneo no parque ou com amigos funciona como um laboratório natural. É na tentativa livre, observando e comparando-se aos colegas, que a criança constrói resiliência, criatividade e memórias motoras profundas, essenciais para o amadurecimento emocional.

"O brincar espontâneo é muito rico porque a criança vai expressar tudo que ela sabe e ao mesmo tempo vai ser um espelho do que os outros estão fazendo, vai experimentar." — Polly Lopes

Qual é a relação entre psicomotricidade e aprendizagem?

O desenvolvimento motor não acontece de forma isolada. Corpo, percepção, atenção, orientação espacial e outras habilidades participam das experiências que a criança vivencia durante a aprendizagem.

Na alfabetização, por exemplo, a criança precisa desenvolver referências espaciais para organizar sua relação com o papel, acompanhar a direção da escrita e compreender diferentes posições e relações entre elementos.

A lateralidade, a orientação espacial, a coordenação motora e a percepção corporal são, portanto, aspectos que podem ser trabalhados durante o desenvolvimento infantil e que dialogam com diferentes aprendizagens.

Isso não significa que uma dificuldade motora, isoladamente, determine uma dificuldade de alfabetização. O desenvolvimento da criança é complexo e envolve diferentes fatores. Por isso, qualquer dificuldade persistente deve ser observada e avaliada considerando o contexto individual da criança.

Quais sinais podem indicar uma dificuldade motora?

Alguns comportamentos podem ser interpretados apenas como "jeito estabanado" da criança. No entanto, quando determinadas dificuldades aparecem com frequência e interferem nas atividades do dia a dia, vale a pena observá-las com mais atenção.

Entre os sinais que podem merecer acompanhamento estão:

  • dificuldade persistente para manter o equilíbrio;
  • dificuldade para caminhar ou correr com segurança para a faixa etária;
  • esbarrões frequentes em objetos e móveis;
  • dificuldade recorrente para realizar movimentos esperados para a idade;
  • cansaço excessivo durante atividades físicas simples;
  • dificuldade para coordenar movimentos em brincadeiras e atividades do cotidiano.

É importante lembrar que um comportamento isolado não significa necessariamente que exista um atraso ou transtorno do desenvolvimento. A frequência, a intensidade e o impacto daquela dificuldade na rotina da criança precisam ser considerados.

A observação feita por professores e outros profissionais que acompanham a criança pode ajudar a perceber esses sinais, mas a identificação de uma condição clínica e o diagnóstico devem ser realizados por profissionais habilitados para essa avaliação.

Psicomotricidade e crianças neurodivergentes

A psicomotricidade também pode fazer parte do trabalho com crianças neurodivergentes, sempre considerando as características e necessidades individuais de cada criança.

No caso de crianças autistas, por exemplo, podem existir diferenças na forma como determinados estímulos sensoriais são percebidos. Texturas, sons, movimentos ou ambientes desconhecidos podem gerar desconforto ou resistência em algumas situações.

Nesses casos, o trabalho psicomotor precisa respeitar o tempo da criança e construir uma relação de confiança. A familiarização gradual com o ambiente, os materiais e as propostas pode favorecer a participação e permitir que a criança explore diferentes possibilidades de movimento com mais segurança.

Mais do que exigir uma resposta imediata, a proposta é compreender como aquela criança se relaciona com o próprio corpo, com o espaço e com os estímulos ao seu redor, adaptando as atividades às suas necessidades.

Psicomotricidade: olhar para a criança de forma integral

Falar em psicomotricidade é falar sobre uma criança que se movimenta, percebe, experimenta, aprende e estabelece relações.

Por isso, estimular o desenvolvimento motor não significa apenas ensinar movimentos. Significa oferecer oportunidades para que a criança explore o ambiente, conheça suas possibilidades corporais, enfrente desafios adequados à sua idade e construa novas experiências.

Em uma rotina cada vez mais marcada por telas e atividades estruturadas, recuperar o espaço do movimento e do brincar pode ser uma estratégia importante para favorecer o desenvolvimento infantil.

E esse olhar integrado é justamente um dos diferenciais da psicomotricidade: compreender que corpo, movimento, cognição e aspectos emocionais estão relacionados no processo de desenvolvimento.

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